Magic2

Sobre / About It’s that a World all Alive has the Strength of a Hell

 

Magia2  

A ideia de performance implica sempre magia. Há uma acção (ou mais) que acontece e depois desaparece. A efemeridade, a duração que sabemos de antemão ser limitada, confere ao momento um encanto particular. A peça que agora se apresenta, nascida da vontade de explorar as imagens sobreviventes à Grécia Antiga, que duma forma mais marcada sugerem movimento, explora esse fascínio e inclui-nos nesse jogo. Aqui, o encanto do desaparecimento reaparece, criando uma interessante tensão que enquanto espectadores somos chamados a gerir.

A performer constrói com o seu corpo posições a cuja formação e “instalação” às vezes assistimos, outras com que nos deparamos. Se pensarmos nas tais imagens da Antiguidade, que duma forma mais ou menos presente povoam o nosso imaginário, podemos perceber que elas são o resultado dum problema: como representar o excesso, a euforia e, claro, o movimento dionisíaco através de figuras estáticas? Deste dilema nascem representações que, embora incluídas numa lógica que globalmente valoriza a harmonia, nos apresentam desequilíbrios, torções e impossibilidades, sugerindo um vocabulário de movimento que dificilmente podemos reconstituir.

A peça É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno, sendo um exercício exploratório das possibilidades e impossibilidades desta reconstituição, afasta-se da tradição dos tableaux vivants, deixando cair a tónica na abordagem historicista e mimética para reequacionar os seus modelos. Aqui, como na Antiguidade, também há dualidade e complementaridade. Apenas uma artista se apresenta mas presente está também o colectivo: esta premissa é válida quanto à equipa autoral mas também no que toca aos elementos presentes na composição. São exemplo disto as sombras criadas no espaço, que podem funcionar como metáforas mas são para além disso – e não esqueçamos que é uma pintora de formação quem dá corpo a este trabalho - figuras. As imagens que representaram húbris, o transe, o caos, são-nos entregues num ritmo apolíneo, sereno, duma forma disciplinada e precisa que se aproxima duma certa dimensão litúrgica que simultaneamente nos concede espaço e tempo para divagar.

O que a representação da libertação dionisíaca através do desenho ou da escultura implica e o que acontece quando essas mesmas figuras são assumidas por um corpo vivo diante de nós, interessou Isadora Duncan e Nijinsky (para citar apenas os exemplos mais evidentes), que a partir dum imaginário semelhante criaram abordagens diversas. Inevitavelmente se depararam com binómios como movimento e imobilidade, contenção e expansão, bidimensionalidade e profundidade, tensão e relaxamento, equilíbrio e desequilíbrio. Nesta performance, a armadilha da reconstituição é convertida num despojado exercício de articulação de todas estas questões, combinadas de maneira a incluir, valorizar e acicatar a nossa percepção.

Por tudo isto, faz sentido falar em “elevar à potência” o carácter mágico da performance. Os componentes desta peça são eles próprios e ainda mais: tal como o movimento da artista, têm um potencial multiplicador, até estabilizarem em nós.

Texto: Mariana Brandão

Magia s.f. 1. arte que pretende agir sobre a natureza e obter resultados contrários às suas leis, por meio de fórmulas ou de ritos mais ou menos secretos, quer utilizando propriedades da matéria que se afirma serem desconhecidas (magia branca), quer fazendo intervir poderes demoníacos (magia negra); feitiçaria; bruxaria;
2. prática de fazer aparecer e desaparecer objectos através de truques; ilusionismo;
3. produção de efeitos extraordinários por meios artísticos; encanto; fascínio; 4. de forma inexplicável ou inesperada; misteriosamente.

 

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Magic2

The idea of performance always implies magic. An action (or more) takes place and then disappears. This fleetingness, a limited duration of which we know beforehand, bestows the moment a particular enchantment. The performance now being presented, born from the desire to explore surviving ancient Greek images, ones that openly suggest movement, mines their fascination and includes us in their endgame. Here, the wonder of disappearance re-emerges, creating a compelling tension, which engages the viewer.

Through her body, the performer constructs positions whose formation and ‘installation’ we at times witness, at others stumble upon. Reflecting upon the images from Antiquity that populate our imagination more or less manifestly, one unders- tands they are the result of a problem: how to represent the excess, the euphoria and, of course, Dionysian movement by way of static figures? From this dilemma are born representations that, although included in a logic which generally values harmony, present us with instabilities, contortions and impossibilities, suggesting a vocabulary of movement that is difficult to reconstitute.

The piece É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno, being an exploratory exercise into the possibilities and impossibilities of this reconstitution, and at a remove from the tradition of the tableaux vivants, underscores the historicist and mimetic approach, re-evaluating these models. Here, as in Antiquity, there is also duality and complementarity. Only one artist presents herself but the collective is equally present: this premise is valid in relation to the creative team but is also relative to the elements present in the composition. Examples of this are the shadows generated in the space, which can function as metaphors but are more than just this – keeping in mind that the performer who embodies this work is trained in painting – they are figures. The images that represented hubris, trance and chaos are delivered to us in an Apollonian, serene rhythm; in a disciplined and precise manner that draws in on a certain liturgical dimension, which simultaneously concedes the spectator room and time for digression.

What the representation of Dionysian liberation through drawing or sculpture implies and what happens when a living body before us assumes these very figures interested Isadora Duncan and Nijinsky (to mention just two more evident examples). They, building upon a similar imaginary, created several approaches. Inevitably, they too came upon bionomials such as mobility and immobility, containment and expansion, two-dimensionality and depth, tension and repose, balance and instability. In this performance, the trap of reconstitution is converted into an unassuming exercise where all these issues are articulated and combined in order to include, value and elicit our perception.

Given all this, it makes sense to speak of the exponentiation of the magical nature of performance. The elements of this piece are what they are and much more: just like the movement of the performer, they have the potential to multiply to the point of stabilizing within us.

 

Text by Mariana Brandão


Magic n. 1. art that aims to act upon nature and obtain results contrary to its laws by means of formulas or more or less secret rites, be it utilizing properties of the matter that are affirmed to be unknown (white magic), be it through the intervention of dark powers; sorcery; witchcraft; 2. practice of making appear or disappear objects through trickery; illusionism; 3. creation of extraordinary effects through artistic means; enchantment; fascination; 4. in an inexplicable or unexpected manner; mysteriously.

 

© Vera Sofia Mota 2017